segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um projeto.

Acho que todas as pessoas que se consideram "Quente e Letrista" (isso é o que eu chamo de o contrário de "Frio e Calculista") me entenderão. Acontece que tenho um sonho muito antigo: Escrever um livro.

A verdade é que eu já comecei a escrever tantos livros que já perdi as contas. Mas sempre foram tão mal escritos que eu mesma ao começar a reler jogava tudo no lixo antes mesmo de chegar no segundo parágrafo. Podem imaginar como eram meus primeiros livros, não? Algo escrito por uma criança de 10 anos de idade mais ou menos que conseguia descrever as personagens apenas de forma idealizada. Bom, é fato: Todos os projetos de livro que tive até hoje foram um desastre absurdo!

Mas há alguns meses atrás comecei a escrever outro. Sabe como é né, "Sou brasileira e não desisto nunca!". E desta vez por incrível que pareça eu me apaixonei pelo primeiro parágrafo da minha história! Sim, na minha opinião ficou muito bom mesmo (pelo menos bem melhor do que os anteriores).

O problema é que eu não tenho exatamente uma história para contar, por isso estou preservando este primeiro parágrafo para poder escrever o resto quando a idéia estiver mais madura na minha cabeça e, é claro, quando eu tiver mais tempo para poder trabalhar nisso.

Mas já que tenho este blog (Diário?) e ninguém o acompanha mesmo, eu pensei em publicar aqui meu querido primeiro-parágrafo que eu mesma, modéstias bem à parte, admiro tanto! Aí vai...

CAPÍTULO I

Caro leitor, vou logo avisando, pare imediatamente esta narrativa se acha que poderei reproduzir nestas páginas a beleza da história que eu, o Tempo, tive a honra de acompanhar calma e lentamente. Pois isso seria impossível. Certas coisas, meu amigo, acontecem uma só vez e não se pode reproduzir com o mesmo ardor e a mesma intensidade nem que se passasse uma vida tentando. Mas antes de dar início a nossa história, precisamos esclarecer certos pontos.
Aqui quem vos fala, não falará de novo jamais. E nem deveria estar falando desta vez, só me permito abrir esta exceção em função da sensibilidade que a menina Bianca, protagonista deste romance, despertou em mim.
Sei que ao longo de sua vida você por vezes me amará e por outras odiará, mas em geral nem perceberá que existo, ou me considerará algo natural e, simplesmente, estabelecido pelos homens antigos, como uma convenção que, ironicamente, sobreviveu ao “tempo”.
Para melhor entendimento entre nós utilizarei termos (estes sim convencionados pelo homem), como: “horas”, “minutos”, “segundos”, “eternidades”, “dias”, “meses”, “anos”, “séculos” etc. Mas saiba que os repudio, compreendo que se fazem necessários para que eu me torne tangível, ou pelo menos, mais concreto. O que considero um absurdo, pois sou e serei, para sempre, abstrato. Não sou como vocês mortais, não tive a glória de nascer e jamais terei a oportunidade de morrer, muito menos “em vida”, se é que quem nunca nasceu vive, tirarei férias, ou poderei me dar ao luxo de ter descansos; trabalho ininterruptamente. Nunca paro, sou como um relógio (e dos relógios, que foram criados em homenagem a mim, até me orgulho de certa forma) que fica no seu sábio tictac, tictac, tictac, tictac, tictac, tictac... Aconteça o que acontecer, haja o que houver! Pois é, companheiro, vês como tens sorte? Afinal podes desfrutar de ficar a ver-me passar nos momentos de ócio que eu simplesmente desconheço...
E fique claro que não sou o mesmo para todos, mesmo que vivam em função de um único sistema que fora estabelecido de contagem de tempo. Sou tão relativo que me indigno em ver como vocês tem a audácia de dizer que um dia dura exatas vinte e quatro horas para os 6,5 bilhões de habitantes deste planeta! Oras, se passo a vida a fazer nada mais, nada menos que alargar o dia de uns e encurtar o dia de outros. Contudo já me é familiar a ingratidão dos homens. A verdade, é que vivo em cada ser que habita este planeta, portanto ninguém pode escapar a mim. E o mais surpreendente é que você é quem me administra da maneira que bem entende. Porém minha intromissão é sempre, para você, algo inevitável, às vezes resolvo brincar de ser percebido e, garanto que sempre o faço devastadoramente. Acontece que tenho um objetivo, mostrar a cada homem que pisa neste mundo que as coisas boas são efêmeras e os sofrimentos são escolhas; para isso muitas vezes conto com alguns colegas, sendo a Morte uma forte aliada.É um tolo o homem que acha que a morte de cada ser no mundo não tem um objetivo direto de ensinar algo a alguém. Alguns aprendem, outros não. Temos de arriscar. Morte gera sofrimento e quando alguém sofre por motivo de morte começa a refletir sobre a vida, e é por isso que me faço arrastar para essas pessoas. Pois o mal do homem moderno é pensar pouco. E aproveito para ir logo deixando claro que a vida é passageira (por mais que eu me esforce em estender a de alguns a Morte me impõe limites e tenho de cumpri-los), vejo isso como um estimulo. Gostaria que todos os homens tomassem consciência disso a tempo, afinal quem cedo percebe a efemeridade da vida, aproveita-a mais. Entretanto é evidente que não sou eu quem decide a morte

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